Quando ouvir histórias desperta o contador que há em mim…

Sempre acreditei na teoria de que ouvir boas histórias impulsiona a contar histórias. Hoje tive mais uma comprovação:
Havíamos acabado de encerrar o encontro na Associação Minha rua minha casa, os participantes já haviam saído, quando um homem entrou ansioso na sala e ficou decepcionado ao ver que a roda de histórias havia acabado. Pediu desculpas pelo atraso e justificou dizendo que hoje ele estava na função de ajudar a lavar os pratos do almoço e que por isso não conseguiu chegar a tempo.
Ele disse que gostou muito das histórias que ouviu na semana passada, saiu muito feliz do encontro e que por isso voltou para nos contar uma história também. Dissemos a ele que gostaríamos de ouvir a sua história, se ele pudesse compartilhar conosco naquele momento. Ele sentou-se e nos contou com muita propriedade e encantamento a história.
Ficamos todos comovidos, tanto que um dos integrantes da Guetto Filmes, que trabalha na parte de filmagem, também virou contador de histórias. No momento em que o convivente começou a narrar a sua história, ele constatou que havia acabado a bateria da filmadora que ele tinha nas mãos. Primeiro foi aquela expressão de decepção: – Não acredito! Justo agora! Depois como não podia mesmo fazer nada, se dispôs a ouvir a história com o coração aberto. E aí aconteceu a magia do ouvir e contar e ele foi fisgado pela arte da narrativa, comovido e impulsionado pelo momento, ele também nos presenteou contando uma história que ouviu uma vez.
Fiquei muito emocionada com esse momento. Eu estava ali sentada, ao lado do meu parceiro contador de histórias, ouvindo o convivente e o cinegrafista com sua câmera na mão desligada e ambos contando histórias.
Tem um provérbio de origem etíope que diz “Quando o coração transborda, ele sai pela boca.” Eu tomei a liberdade de adaptar esse provérbio pra dizer assim: “Contador de histórias é todo aquele cujo coração transborda e sai pela boca”.

Célia Gomes

Sobre abrigodehistorias

Abrigo de Histórias é um projeto de incentivo a leitura para pessoas em situação de alta vulnerabilidade social, realizado em albergues e abrigos que acolhem esse público na cidade de São Paulo.
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2 respostas para Quando ouvir histórias desperta o contador que há em mim…

  1. Fabiana Rubira disse:

    Parabéns! Estou adorando acompanhar o trabalho de vocês. Dessa vez, vocês colocaram no blog um provérbio etíope que uso para encerrar a minha dissertação de mestrado “Quando o coração transborda, ele sai pela boca”, com certeza esses transbordamentos provocados por trabalhos como esse há de irrigar e fertilizar muitas terras ressecadas pelo abandono, pelo descaso e pelas esperanças perdidas…

  2. andres legum disse:

    “O cinegrafista-contador de histórias agradece…com o coração transbordado!”

    ; )

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