Quando uma história conta a minha história…

Depois de ouvir a história “Encontrando o Paraiso” o Sr V. nos fez, emocionado, o seguinte relato:
Essa história é muito parecida com a minha… Me lembrou muito a minha situação… Há 15 anos atrás eu vivia na minha casa, com minha esposa e duas filhas. Tinha emprego e até uma moto. Mas achava que a vida não estava boa e comecei a beber. Bebia todos os dias e comecei a brigar com a minha esposa. Até que numa dessas brigas eu peguei as minhas coisas e fui embora de casa. Não tinha pra onde ir, mas não quis dar o braço a torcer e voltar pra casa… Fiquei pelas ruas… Comecei a dormir nos albergues e no começo achei que estava tudo bem, tinha onde dormir e comer sem pagar, mas depois sofri muito pois essa vida não é fácil!
Agora já faz 15 anos que estou na rua, consegui parar de beber e outro dia eu voltei na casa da minha família e vi aquela casinha, minha mulher,minhas filhas moças indo para a faculdade e pensei: eu era feliz e não sabia! O que eu fui fazer da minha vida? Vivia no “paraíso”… Como nessa história…
Agora estou aqui, nessa vida…

Essa história conta igualzinha a minha história…

Narração da história:
Encontrando o Paraíso

(versão de Esther Becker no livro Encontrando o paraíso)

Era uma vez um homem que desistiu da vida. Ele não encontrava alegria em seu trabalho, reclamava da esposa dizendo que ela era feia e cozinhava mal, da casa e da vila em que morava. Começou a rezar e pedir que Deus lhe deixasse partir desse mundo.
– Mostrai-me logo o caminho do paraíso! Eu quero ir viver lá! Não agüento mais essa vida!
– Tem certeza que é isso que você quer? – perguntou Deus.
– Tenho certeza com todo o meu coração.
– Muito bem – respondeu Deus, e lhe mostrou o caminho do paraíso.
Não era muito longe: apenas a alguns dias de viagem da sua aldeia.
O homem ficou feliz! Pegou alguns pertences, colocou numa sacola e saiu em sua caminhada a caminho do paraíso. Andou até o cair da noite quando resolveu descansar sob uma árvore. Um pouco antes de adormecer, pensou que quando acordasse pela manhã, poderia ficar confuso e não distinguir entre a direção para o paraíso e a de volta para a sua aldeia. Decidiu deixar os seus sapatos ao lado da estrada, apontando na direção do caminho que deveria seguir. Desse modo, quando acordasse, tudo que ele teria que fazer seria calçar os sapatos e continuar.
Porém, durante a noite, algo aconteceu. Um pequeno animal remexeu os seus sapatos, que acabaram virados na direção oposta. Quando o homem acordou, verificou com muita atenção a direção que os sapatos apontavam e continuou o seu caminho, sem perceber que estava voltando para casa.
Depois de muito caminhar, avistou uma aldeia na colina e seu coração deu um pulo.
– Cheguei, aqui é o paraíso! Correu feliz pelo vale e subiu até a colina, passou pelos portões da aldeia e entrou.
Sentou-se e testemunhou o pôr do sol, ouviu a canção das crianças brincando observou os adultos que voltavam do trabalho e pensou:
– Mas esse lugar até parece um pouco com a aldeia em que morava… Bobagem!Aqui é muito mais bonito!!!
Ficou lá sentado por algumas horas, só observando e pela primeira vez na vida, sentiu a vitalidade, a energia e o amor. Mas logo começou a sentir fome e disse:
– Já que o paraíso se parece tanto com a aldeia, será que há por aqui uma rua igual a minha?
Saiu procurando e a encontrou exatamente onde pensou que ela deveria estar.
– Também me pergunto se há uma casa no paraíso como a minha. E lá estava ela. Justamente quando ele estava admirando a casa, uma mulher veio até a porta, chamou o seu nome e disse que ele entrasse para jantar.
– Eles me conhecem no paraíso! Existe até um lugar pra mim no paraíso! Existe até uma mulher!! Pensou.
Mas aquela mulher era muito mais bonita do que aquela que ele tinha e a a casa no paraíso não era como a sua na aldeia. Era muito ais agradável, acolhedora e cheia de vida. Ele se sentou e comeu a melhor refeição que já havia comido. Depois caiu no sono mais profundo e mais relaxante que já havia conhecido.
Pela manhã, a mulher, que se parecia com a sua esposa, deu-lhe suas ferramentas e o mandou para o trabalho.
– Trabalho? As pessoas aqui no paraíso também trabalham?
Pegou as ferramentas e foi trabalhar. E achou que aquele trabalho era diferente. Era carregado de um senso de propósito e serviço. Ao fim do dia, voltou para aquela casa quente e amorosa.
. Aquele homem nunca percebeu que não havia realmente chegado ao paraíso. Porque cada um dos seus dias na velha aldeia era preenchido com mais maravilhas, mais propósito, mais alegria e mais vida do que antes.
E assim, ele viveu feliz acreditando que vivia no paraíso.

Sobre abrigodehistorias

Abrigo de Histórias é um projeto de incentivo a leitura para pessoas em situação de alta vulnerabilidade social, realizado em albergues e abrigos que acolhem esse público na cidade de São Paulo.
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